Animaes qui si Alimentão di Versos

                                                                                                                                                            como os informes filhos das calamidades, que comem ratos, 

                          calangos, insetos, cabeças de bode, bojos de pássaros

          ou como as crianças escravas do Sudão

   que se alimentam de cascas de beterraba

                  e batata e feijão azedo e sobras e raspas feito baratas,

   como a hiena   que se nutre de fezes dos donos da

 caça, restos despojos de alguma carnagem, das mesmas fezes

                                de que nascem insetos que vivem de graça

    em gerações de estrume pastagem, 

 …de réxtos… 

 como o tempo se alimenta de sonhos,

e pouco a pouco os dissolve…

 e não sobra lembrança, suspiro ou momento ou herança de lamento,

                 como caranguejo de charco, carniças nas pinças, restos de peixes de corpos de coisas extintas e extratos

ou como pombos, pardais, andorinhas vorazes,

             paranóicos, estenográficos, taquicárdicos por polvilhos de pão,

sementes, bichos secos estampados em cubismos

                                         sudários …de réxtos…. 

                        como a amargura que absorve a memória já rota e desfibrada,

                                   como o ressentimento corrói o futuro já feito farrapo

ou como o gênio que devora o que não sabe e nele não cabe

              senão em pedaços

                        como a saudade que corrompe lembranças,

imagens e sons, gestos e cores, em quimos sociográficos

ou como o vento que dispersa o fumo, fluido necrológio da vida

 que já não arde

…de réxtos…

 como o sol que vaza a neblina — sobra de nuvem… joeira d’água, caramujos

que raspam o lodo de piscinas de que se não trata

            ou como a noite que engolfa o mundo cansado de luz a esboroar-se 

                        como o dia que retalha o sono, ou como a ave

sobranceira dos mares, albatroz nobiliário, que eviscera peixes

no convés de um barco, como a lagosta que arremata o charque

                     azulíneo do baço do pirata sem olhos, sem língua,

sem ânus, sem traços

                                   como a terra absorve a fruta só quando já podre

                                               como a aranha que come o podre

por dentro da casca,

                 a úsnea, o cogumelo, os platelmintos e as cracas

                como o verme que rói a fibra ou areando ossos… a sonsa lacraia

…de réxtos…

como hiena ou como tempo

como gênio ou como rato

albatroz ou caranguejo

como verme ou como vento

como pombo ou como escravo

como noite ou claridade

caramujo ou neblina

como tempo ou amargura

como fome ou só saudade

de réxtos

seja de pé ou de rastros 

vós, leitor,

                       alimentai-vos de versos.

Publicado em: on 1 Fevereiro, 2008 at 7:41 pm Deixe um comentário